Quem assina, quem responde

Sim: o médico do trabalho pode assinar laudo de insalubridade

A dúvida circula em licitação, em auditoria de cliente e em contestação de perícia. Ela não sobrevive à leitura do art. 195 da CLT: o texto legal escreve o nome da profissão, e escreve primeiro. Este artigo mostra onde está a autorização, por que a objeção mais repetida não a derruba, e qual é o limite real — que é de execução, não de direito.

A lei escreve o nome da profissão

A pergunta se resolve no texto da CLT. O art. 195 diz quem faz a perícia e diz com todas as letras.

CLT, art. 195, caput (redação da Lei nº 6.514/1977)Caracterização e classificação de insalubridade e periculosidade: "A caracterização e a classificação da insalubridade e da periculosidade, segundo as normas do Ministério do Trabalho, far-se-ão através de perícia a cargo de Médico do Trabalho ou Engenheiro do Trabalho, registrados no Ministério do Trabalho."

Médico do Trabalho abre a enumeração. Não é ressalva, não é tolerância, não é hipótese subsidiária: é a primeira das duas profissões que a lei federal habilita, em pé de igualdade com o engenheiro. O laudo de insalubridade assinado por médico do trabalho nasce autorizado por lei.

Um detalhe de redação. A CLT diz "Engenheiro do Trabalho"; as normas regulamentadoras e a legislação previdenciária dizem "engenheiro de segurança do trabalho". A designação do engenheiro varia entre os textos. A do médico não varia em nenhum deles: é "médico do trabalho" em todos.

Periculosidade vem no mesmo artigo

O art. 195 trata de insalubridade e de periculosidade na mesma frase, sob a mesma reserva. São dois laudos distintos, com normas técnicas distintas — NR-15 para um, NR-16 para o outro —, mas com uma única regra de quem assina. As duas normas repetem o par, e nenhuma delas acrescenta condição que separe o médico do engenheiro.

NR-16, item 16.3Responsabilidade pelo laudo de periculosidade: "É responsabilidade do empregador a caracterização ou a descaracterização da periculosidade, mediante laudo técnico elaborado por Médico do Trabalho ou Engenheiro de Segurança do Trabalho, nos termos do artigo 195 da CLT."
NR-15, item 15.4.1.1Fixação do adicional pela autoridade regional: "Cabe à autoridade regional competente em matéria de segurança e saúde do trabalhador, comprovada a insalubridade por laudo técnico de engenheiro de segurança do trabalho ou médico do trabalho, devidamente habilitado, fixar adicional devido aos empregados expostos à insalubridade quando impraticável sua eliminação ou neutralização."

Na NR-16 o médico do trabalho é nomeado em primeiro lugar. Na NR-15 é nomeado em segundo. A ordem muda, a habilitação não.

O mesmo par reaparece fora da CLT

O legislador não usou essa dupla uma vez só. Ao definir a base do LTCAT, a legislação previdenciária repetiu a mesma escolha.

Lei nº 8.213/1991, art. 58, § 1º (redação da Lei nº 9.732/1998)Comprovação da exposição a agentes nocivos: "A comprovação da efetiva exposição do segurado aos agentes nocivos será feita mediante formulário, na forma estabelecida pelo Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, emitido pela empresa ou seu preposto, com base em laudo técnico de condições ambientais do trabalho expedido por médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho nos termos da legislação trabalhista."

Aqui o médico do trabalho volta a abrir a frase, e o texto ainda remete expressamente à legislação trabalhista — ou seja, ao art. 195. Sobre o que esse documento previdenciário precisa trazer, veja o que o LTCAT precisa conter.

A objeção do "registrados no Ministério do Trabalho"

Existe uma objeção corrente, e ela merece ser enunciada com honestidade antes de ser respondida. Diz assim: o art. 195 não habilita qualquer médico do trabalho, habilita o que estiver "registrado no Ministério do Trabalho"; esse registro é de 1977 e não opera hoje como operava então; logo, o médico não teria como comprovar a condição que a lei exige, e o laudo cairia.

A objeção não alcança o direito de assinar, por uma razão que está na própria frase: a expressão qualifica os dois profissionais, não um deles. O texto diz "a cargo de Médico do Trabalho ou Engenheiro do Trabalho, registrados no Ministério do Trabalho". O particípio está no plural e fecha a enumeração inteira. Não há vírgula, não há conjunção e não há construção sintática que prenda a exigência ao médico e libere o engenheiro.

A consequência é simétrica: se a expressão derruba o médico do trabalho, derruba o engenheiro de segurança do trabalho na mesma medida e pelo mesmo motivo. Quem invoca esse argumento para dizer que o médico não pode e o engenheiro pode está lendo metade da frase. Não existe leitura do art. 195 que produza um laudo válido de engenheiro e um laudo inválido de médico — ou os dois valem, ou nenhum vale, e a segunda hipótese esvaziaria o próprio artigo.

A objeção, quando é feita de boa-fé, não é sobre quem pode assinar. É sobre como se comprova a habilitação hoje. E essa parte tem resposta prática: comprova-se pelo conselho profissional. No caso do médico, o registro de especialista fica no Conselho Regional de Medicina, e Medicina do Trabalho consta da relação oficial de especialidades.

Resolução CFM nº 2.380/2024, art. 1ºRelação de especialidades e áreas de atuação: "Homologar a Portaria CME nº 1/2024, em anexo, que atualiza a relação de especialidades e áreas de atuação médicas aprovadas pela CME."

No anexo dessa resolução, Medicina do Trabalho aparece na relação de especialidades, com formação de dois anos e duas vias de titulação: programa de residência médica pela CNRM e concurso do convênio AMB/Associação Nacional de Medicina do Trabalho. Quem contrata o laudo confere isso no CRM, e a checagem é pública. A objeção, então, se converte em um item de conferência documental — não em uma proibição.

Quando a norma quer reservar, ela nomeia

Um contraste ajuda a medir o peso do art. 195. Rodei busca lexical, sem distinção de maiúsculas, no texto integral da NR-17, anexos incluídos. Os termos "engenheiro", "fisioterapeuta", "ergonomista", "conselho" e "habilitado" aparecem zero vez. O radical "profissiona" aparece duas vezes, as duas no Anexo II: uma trata de acolhimento por profissionais de saúde ocupacional, a outra da notificação de doenças profissionais. Nenhuma delas reserva a Análise Ergonômica do Trabalho a uma categoria. A contagem foi medida, não suposta.

Isso mostra que o legislador de SST sabe fazer as duas coisas. Quando quer reservar, ele escreve os nomes, como no art. 195, na NR-15 e na NR-16. Quando não quer, cala. A presença do médico do trabalho no art. 195 é uma escolha deliberada de quem redigiu, não um resíduo. Sobre a AET e seus gatilhos — um deles é o próprio acompanhamento de saúde dos trabalhadores, no item 17.3.2, alínea "c" —, veja quando a AEP e a AET são exigidas.

O "sim" da lei resolve o direito de assinar. Ele não dispensa ninguém de saber fazer. São dois planos, e confundi-los é o erro que sustenta boa parte da discussão.

A insalubridade não tem um caminho único de caracterização. O item 15.1 da NR-15 abre três: exposição acima dos limites de tolerância dos Anexos 1, 2, 3, 5, 11 e 12 (item 15.1.1); atividades mencionadas nos Anexos 6, 13 e 14 (item 15.1.3); e caracterização comprovada através de laudo de inspeção do local de trabalho, nos Anexos 7, 8, 9 e 10 (item 15.1.4). Cada caminho pede um tipo diferente de trabalho técnico. O detalhamento está em como se caracteriza a insalubridade e, para o caminho por inspeção, em insalubridade qualitativa por inspeção.

Onde o médico do trabalho costuma estar mais confortável: nos caminhos que dependem de descrição de atividade, de julgamento sobre agentes biológicos e de leitura do efeito da exposição sobre a saúde do trabalhador. É o terreno da formação dele.

Onde o terreno exige preparo adicional: nos caminhos quantitativos. Medir ruído, calor, vibração ou concentração de agente químico envolve instrumento calibrado, estratégia de amostragem e metodologia própria — e a norma cobra representatividade, não uma leitura solta.

NR-09, itens 9.4.2 e 9.4.2.1Avaliação quantitativa das exposições ocupacionais: "A avaliação quantitativa das exposições ocupacionais aos agentes físicos, químicos e biológicos, quando necessária, deverá ser realizada para: a) comprovar o controle da exposição ocupacional aos agentes identificados; b) dimensionar a exposição ocupacional dos grupos de trabalhadores; c) subsidiar o equacionamento das medidas de prevenção." E: "A avaliação quantitativa deve ser representativa da exposição ocupacional, abrangendo aspectos organizacionais e condições ambientais que envolvam o trabalhador no exercício das suas atividades."

Nada disso retira do médico o direito de assinar. O que isso cria é dever: quem assina responde pelo que assinou. Diante de um laudo que depende de medição, o médico do trabalho se prepara, usa metodologia reconhecida e documenta o que fez — ou não assina aquele laudo. A regra é exatamente a mesma para o engenheiro diante de um anexo que exige julgamento clínico. Nenhum dos dois profissionais é competente por decreto em toda a extensão da NR-15.

Dois lembretes de fronteira. O laudo de insalubridade é peça própria e não se resolve dentro do programa de saúde: insalubridade não se decide no PCMSO. E a habilitação das peças vizinhas segue a regra de cada norma — veja quem pode assinar o PCMSO e quem assina o PGR.

A condição do registro: o par do estado

Há uma condição que não está no art. 195 e precisa ser dita com a fonte declarada. A CLT trata de habilitação profissional; ela não regula inscrição em conselho por unidade federativa. Essa parte vem do sistema de conselhos, e não das fontes normativas de SST citadas neste artigo.

Na prática, o médico tem inscrição em cada estado onde atua, e o número de registro de especialista anda em par com a inscrição daquele mesmo estado. Misturar o registro de uma UF com o número de especialista de outra produz identificação profissional inconsistente no documento — um defeito de forma que o contestante encontra rápido.

O que o leitor deve fazer: conferir o par completo no Conselho Regional de Medicina do estado em que o laudo será emitido, antes da assinatura. É consulta pública. O tema aparece de outro ângulo em PCMSO assinado por médico de outro estado.

Laudo para a empresa não é perícia judicial

São duas peças com finalidades diferentes, e a confusão entre elas alimenta parte da dúvida. O laudo administrativo é contratado pela empresa e serve à gestão do risco, à decisão sobre adicional e à fiscalização. A NR-15 e a NR-16 passaram a exigir, inclusive, que ele fique disponível aos trabalhadores, aos sindicatos das categorias profissionais e à inspeção do trabalho — itens 15.4.1.3 e 16.3.1, ambos inseridos pela Portaria MTE nº 2.021, de 3 de dezembro de 2025, com vigência a partir de 3 de abril de 2026.

A perícia judicial é outra coisa: ela ocorre dentro de um processo, por nomeação do juiz. E aqui o art. 195 volta a falar.

CLT, art. 195, § 2º (redação da Lei nº 6.514/1977)Perícia arguida em juízo: "Argüida em juízo insalubridade ou periculosidade, seja por empregado, seja por Sindicato em favor de grupo de associado, o juiz designará perito habilitado na forma deste artigo, e, onde não houver, requisitará perícia ao órgão competente do Ministério do Trabalho."

"Perito habilitado na forma deste artigo" remete ao caput — isto é, ao mesmo par de profissões. O médico do trabalho está habilitado nas duas frentes pela mesma norma.

CLT, art. 195, § 3º (redação da Lei nº 6.514/1977)Ressalva da fiscalização: "O disposto nos parágrafos anteriores não prejudica a ação fiscalizadora do Ministério do Trabalho, nem a realização ex officio da perícia."
AspectoLaudo administrativoPerícia judicial
Quem contrata ou designaA empresa (NR-16, item 16.3)O juiz (CLT, art. 195, § 2º)
Habilitação exigidaMédico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalhoPerito habilitado "na forma deste artigo" — o mesmo par
FinalidadeCaracterizar ou descaracterizar; subsidiar decisão da empresa e a fiscalizaçãoInstruir o processo sobre o pedido de adicional
DestinatárioEmpresa, trabalhadores, sindicatos e inspeção do trabalho (NR-15, item 15.4.1.3; NR-16, item 16.3.1)O juízo

Um limite de fonte, declarado: as regras de nomeação, de cadastro de peritos e de tramitação da prova pericial estão na legislação processual, que não é fonte deste artigo e não foi conferida aqui. O que a CLT resolve — e é o que se afirma — é a habilitação profissional de quem pode periciar. Para a mecânica processual, o leitor confere no Código de Processo Civil e nas normas da Justiça do Trabalho.

Recebeu um laudo pronto e quer avaliar se ele se sustenta? O roteiro está em conferir um laudo de insalubridade.

Posição da casa

A resposta é sim, e não é uma questão em aberto. O art. 195 da CLT nomeia o Médico do Trabalho em primeiro lugar, a NR-15 e a NR-16 repetem o par, e a Lei 8.213/1991 repete de novo no LTCAT. A objeção do registro no Ministério do Trabalho não separa as duas profissões, porque a expressão qualifica as duas na mesma frase — usá-la contra o médico obriga a usá-la contra o engenheiro. O que fica de pé, e importa, é outra coisa: o direito de assinar não substitui o preparo para aquele laudo. Onde a caracterização é quantitativa, quem assina precisa dominar instrumento e metodologia, ou recusar o trabalho. Isso vale para o médico e vale para o engenheiro, na mesma medida em que a lei os tratou — juntos.

Perguntas frequentes

Médico do trabalho pode assinar laudo de insalubridade?

Sim. O art. 195 da CLT determina que a caracterização e a classificação da insalubridade se façam "através de perícia a cargo de Médico do Trabalho ou Engenheiro do Trabalho". A profissão está nomeada no texto legal, em primeiro lugar na frase. A NR-15, no item 15.4.1.1, e a NR-16, no item 16.3, repetem o mesmo par de profissionais.

A exigência de "registrado no Ministério do Trabalho" invalida o laudo do médico?

Não. A expressão está na mesma frase e qualifica os dois profissionais: "Médico do Trabalho ou Engenheiro do Trabalho, registrados no Ministério do Trabalho". Ela não distingue um do outro. Se derrubasse o médico, derrubaria o engenheiro na mesma medida — o que esvaziaria o próprio artigo. Hoje a habilitação se comprova pelo conselho profissional, e Medicina do Trabalho consta da relação de especialidades homologada pela Resolução CFM nº 2.380/2024.

O médico do trabalho também assina o laudo de periculosidade?

Sim. O art. 195 da CLT trata de insalubridade e periculosidade na mesma frase, sob a mesma reserva de profissões. A NR-16 confirma no item 16.3: a caracterização ou descaracterização da periculosidade se faz "mediante laudo técnico elaborado por Médico do Trabalho ou Engenheiro de Segurança do Trabalho, nos termos do artigo 195 da CLT". São dois documentos diferentes, com uma única regra de quem assina.

Fontes

Toda afirmacao normativa deste texto foi conferida na fonte oficial, com o item citado.

  1. Presidência da República — Casa Civil · Decreto-Lei nº 5.452/1943 (CLT), com redação da Lei nº 6.514/1977 · Art. 195, caput e §§ 2º e 3º Acesso em 2026-08-27
  2. Ministério do Trabalho e Emprego · NR-15 — Atividades e Operações Insalubres · Itens 15.1, 15.1.1, 15.1.3, 15.1.4, 15.4.1.1 e 15.4.1.3 (este inserido pela Portaria MTE nº 2.021/2025) Acesso em 2026-08-27
  3. Ministério do Trabalho e Emprego · NR-16 — Atividades e Operações Perigosas · Itens 16.3 e 16.3.1 (este inserido pela Portaria MTE nº 2.021/2025) Acesso em 2026-08-27
  4. Presidência da República — Casa Civil · Lei nº 8.213/1991, com redação da Lei nº 9.732/1998 · Art. 58, § 1º Acesso em 2026-08-27
  5. Ministério do Trabalho e Emprego · NR-09 — Avaliação e Controle das Exposições Ocupacionais a Agentes Físicos, Químicos e Biológicos · Itens 9.4.1, 9.4.2 e 9.4.2.1 Acesso em 2026-08-27
  6. Ministério do Trabalho e Emprego · NR-17 — Ergonomia · Item 17.3.2, alínea "c"; busca lexical no texto integral, anexos incluídos: nenhuma reserva de profissão para a AET Acesso em 2026-08-27
  7. Conselho Federal de Medicina · Resolução CFM nº 2.380/2024 · Art. 1º e anexo (Portaria CME nº 1/2024) — Medicina do Trabalho na relação de especialidades Acesso em 2026-08-27

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